Seguindo na garoa de uma noite chuvosa

Texto sendo trabalhado. Vou deixar congelado neste ponto até decidir o que vai ser.

Era uma noite de garoa fria e chuvosa, anunciando a chegada do inverno. A temperatura chegando a zero fazia a estrada mais perigosa. O gelo é traiçoeiro e a visibilidade reduzida com a chuva fina. Seguia dirigindo. Os grandes caminhões, ao cruzarem, eram como uma bofetada, um sorriso de escárnio num ato de desprezo. Faziam-no sentir-se mais estrangeiro, mais alienígena; um náufrago no meio da garoa. A lufada de ar vinha cheia da névoa gerada pelos pneus, somando-se à chuva que ia caindo. A van sentia o impacto do ar, chacolejava e se deslocava um pouco, exigindo correções para manter-se estável. A reflexão e a luz forte dos faróis quase faziam perder o senso de direção. Havia cumprido metade da missão: deixar a filha na universidade, um campus pequeno numa cidade pequena, na qual ela está morando durante todo o curso. Ela parece estar feliz, vivendo um tempo cheio de amizade e luz. Se despediram com um abraço gostoso e beijos. Era um domingo. A viagem durava quase duas horas pra ir e vir. Na volta uma música de fundo tocava no rádio, mas ele estava indiferente o suficiente pra não prestar muita atenção. Com as gotículas de chuva e a neblina os faróis não rompiam bem a névoa. Tinha que prestar muita atenção às margens da estrada, de onde podia saltar um veado desnorteado com as luzes. A temporização do limpador do pára-brisas não parecia se encaixar com o ritmo da chuva, por isto preferiu deixá-lo funcionando continuamente. Sentia ainda aquela nevralgia em sua perna esquerda que estava demorando pra ir embora. Há dias um incômodo constante. Em sua mente, em sua alma, também havia um fog denso, um frio invernal. Pensou que a viagem poderia trazer alguma inspiração, que alguma coisa iria emergir da escuridão e se tornar palavra, mas não, tudo o que veio foi silêncio num quase forçado estado de meditação. Era um silêncio entrecortado por balbucios. O cérebro parecia querer ficar calado, descansar do vozerio interno, mas ainda assim estava lá aquela ladainha de coisas por fazer, coisas que poderiam acontecer, coisas pra comprar, sentimentos difusos a respeito de si mesmo, do que sua vida se tornou, das pessoas que fazem parte dela agora. Algumas próximas, outras distantes, lembranças novas e antigas. Havia também pensamentos e planos inúteis, alguns ligados ao trabalho. Tinha um novo emprego mas havia perdido sua paixão. Podia desempenhar o papel eficientemente, mas de forma agoniada, os sentimentos calados dentro de si. Sua vida se tornou virtual e muito dispensável. Ainda tinha um papel a cumprir e isto o ajudava a manter o foco, dava uma certa concretude e senso de utilidade. Pensou no filme que estava assistindo às prestações, sobre Virgínia Wolf. A estória localizada no tempo de sua vida próximo à decisão de abandonar a existência, adentrando as águas rápidas de um ribeiro. Lembrou-se de uma fala dela que dizia algo como  – morrer pode ser uma forma de atingir a paz e evitar a vida. Ela parecia amar a vida, amar a vida como se ama um outro ente. Ele vinha também se fazendo perguntas sobre a validez da vida, a liberdade de escolher viver ou não. A vida, afinal, não é um valor absoluto e inquestionável; e nem necessariamente um bem em si mesmo. Viver é uma escolha, sempre, quando a infância fica pra trás, quando o cordão umbilical da vida é rompido, quando todas as crenças e explicações sobre o mundo estão perdidas para sempre. Ele estava a sós com o existir, com uma grande e íntima questão sobre a dimensão do viver. Lembrou-se da visão perturbadora de estar no mar em um pequeno barco e ver a terra desaparecendo, a noite chegando na ondulação das negras ondas, a ancestral água dos tempos, os medos, a perda da proteção do mundo humano. Nestas horas, pensou, o saber que tudo está conectado é suspenso. Vive-se de forma completa o ser individual. Separado da existência podia então contemplá-la em seu esplendor e frieza. Tudo o mais parecia um estado de ilusão, de ingenuidade em que vivera até então. Divagou um pouco, pensando que no filme Nicole Kidmam não parece Nicole Kidman, não está num daqueles papéis estereotipados de cinema pra fazer dinheiro, e que simplesmente atende ao gosto  popular. Ele se sentiu um pouco transportado nos pensamentos, mas logo caiu na realidade. Ali estava ele cortando a noite, seguindo no limbo daquela garoa, um estranho num mundo frio e húmido, vivendo um dia depois do outro. A estrada ia correndo sob o carro, as gotículas de chuva na luz do farol apresentando um padrão de movimento em uníssono, uma dança quase hipnótica, que o desviava do ensimesmamento daquela hora quase soturna. No escuro do carro sentiu um pouco de aconchego, o ar morno do ventilador talvez tivesse induzido aquela sensação quase intra-uterina. A luz dos faróis e do painel davam-lhe uma sensação de estar numa longa viagem pelo céu, num pequeno avião. Ele reconhece este devaneio antigo que o acompanha desde a infância, dos tempos em que sonhava ser um aviador, tal como Saint-Exupéry, voando sozinho em regiões remotas, vendo o nascer e o pôr do sol das alturas. Voando entre  nuvens, sob as estrelas e a luz da lua, voando através da fragilidade da existência, entre dimensões colossais. 

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About Mario Flecha

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