Os Eternos Rios de Sangue do Brasil

Há muito tempo, muito, muito tempo, o Brasil é um Rio de Sangue. Rio é o Brasil, é a cara mais exposta do Brasil. Não parece que a dita democracia e a economia pra cima estão preocupadas em resolver o fenômeno das favelas, do analfabetismo e da ignorância crônica dos muitos meio-cidadãos, dos esquecidos que fazem parte da máquina matadora de gente no Brasil. A economia e política social de migalhas que está sendo praticada no Brasil é a economia que assume como verdade a existência de “resíduos sociais”, que devem ser deixados entregues à própria sorte e reprimidos de tempo em tempo, quando se excedem.

Fora isto, o implícito assumido é que é uma fatalidade da economia ultra-moderna que estamos praticando. Uma economia de “resultados”. A diferença da de antes é que o cinismo ainda não era tão prevalente. Agora é. Todos os bandidos de favela do Brasil são parte dos resíduos sociais. Os bandidos ricos são parte da elite econômica que diz o que é o mundo, o que é a verdade, o que é certo e errado, e declaram a imutabilidade do universo. O que mantém a brutalidade da realidade brasileira é bem identificado e conhecido. A recorrência destes eventos é como um disco arranhado. Vai se repetir. Não há novidade nisto. Se os princípios que governam os atos são os mesmos, então como esperar diferentes resultados? A matança continua.

A máquina de fazer bandidos está livre, leve e solta, e vai continuar produzindo mais. Para os mais nazistas a resposta seria o extermínio, para os que têm alguma coisa na cabeça, a resposta deve doer e ser difícil, porque há muito o que fazer e que não se faz. A guerra da vida cotidiana brasileira é uma doença social de uma insensibilidade que mancha o caráter de gerações que ainda estão por vir. Me entristece ver gente novinha já com o alto grau de cinismo que justifica o status quo da violência.

O mal sem remédio que crassa no Brasil, sem que aparentemente se saiba o porquê, mas cuja causa parece ser um ato de deus ou do diabo, é um mal que tem cura mas que vai muito além do colocar voto na urna ou políticas de banho-maria. Difícil de engolir, mas os mais violentos são apenas os que foram mais violentados, são as primeiras vítimas na ordem de precedência da cadeia da violência. Há cura para os que foram inteiramente devorados pela violência institucionalizada na sociedade brasileira? Provavelmente não. O dano desta doença social levaria talvez muitas dezenas de anos para ser erradicado, caso alguma coisa estivesse sendo feita neste sentido. Justiça seja feita a todos os grupos que se dedicam a mitigar este problema, mas não é suficiente, a grande massa da sociedade brasileira não está nem aí.

Seus atores vivem no crime e na repressão ao crime, fazem parte da máquina que sustenta o Brasil-maravilha que se senta sobre ela e vive uma vida bela e livre. Tudo isto é o produto made in Brasil, não o resultado de pactos individuais com o diabo. Tudo está conectado, nada é por acaso nesta realidade. Nada vai mudar nesta pintura porque, segundo os profetas do neo-liberalismo, este é o fim do caminho, o fim da história. Os resíduos sociais são o efeito colateral daquilo que, outrossim, seria perfeito. Não há motivação para mudar, exceto entre os esquecidos, mas eles estão tão perdidos quanto o resto, e as elites usurpadoras realmente não estão nem aí.

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About Mario Flecha

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