Panela de Pressão

Fernando Pessoa, um homem de direita, disse em versos de seu heterônimo Álvaro de Campos que “…isto acontece a tanta gente que nem vale a pena ter pena da gente a quem isto acontece.” Foi honesto ao admitir sua maneira de pensar. E eu me pergunto por quê. E penso que a insensibilidade está institucionalizada nas políticas, nas ações, na falta de urgência para resolver de vez e para sempre o problema da violência, da guerra constante do Brasil. É uma opção feita há muito tempo que se reproduz de forma muito eficiente.

Em outros tempos se diria que só uma revolução pode mudar a realidade brutal da panela de pressão. No entanto, o que podemos esperar são políticas de panos quentes, nunca uma solução definitiva. Para esta as mudanças teriam que ser radicais.

Cuba, um país tão criticado, eliminou o analfabetismo, mortalidade infantil é praticamente coisa do passado, e não há favelas e crime organizado nos níveis que outros países vivem este absurdo, que no Brasil é um recorde mundial. A chamada liberdade é uma liberdade dos cínicos que usurpam as riquezas, porque quem é livre não vive em favelas e nem tolera ser explorado e massacrado, nem tolera que isto aconteça a outros. Não há liberdade real sem equanimidade.

Portanto, esta é uma questão de opção. A política da panela de pressão é uma escolha. Pra mudar haveria que existir redistribuição de rendas, e muitas medidas que serão intoleráveis para a minoria bem-de-vida do país (bem de vida inclui mesmo os setores mais pobres da classe média). O estratos privilegiados da sociedade não permitirão mudanças quaisquer que toquem seu status. Alguém tem que resolver o problema com uma varinha de condão.

A panela de pressão está enterrada profundamente nas crenças e na ideologia que domina a realidade. Tal como a panela de pressão, as coisas se acumulam, os ressentimentos explodem, há o reboliço do momento e depois tudo volta ao de sempre. Removida a pressão do momento, a panela volta a cozinhar a próxima crise.

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About Mario Flecha

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