A face do amor é o vazio do mundo

A palavra amor já foi incansavelmente falada, dançada, pintada, representada, esculpida, tocada, cantada, vivida, e escrita tantas vezes quantas são as estrelas do céu, os grãos de areia, os átomos em cada pedaço de matéria na vastidão do espaço-tempo.

O amor não existe in natura, é uma construção do ser humano, a mais sublime de todas. A elusiva face do amor não está lá, está aqui. A natureza não tem amor, os objetos inanimados não o contém, a procriação não é amor, é puro instinto vital, uma pulsão. A beleza que somos capazes de ver no mundo é a beleza em nós, não a beleza do mundo.

O mundo não é belo nem feio. O mundo não significa nada. Nada além de cada um de nós é capaz de construir amor. A paixão de Romeu e Julieta, desculpe-me Shakespeare, não é amor, nem Tristão e Isolda, bonitas estórias, palpitantes, eletrizantes, mas pálidas no que tange ao amor. O amor é gratuito mas é a mais difícil das gratuidades. Talvez por isto é também a coisa que estamos mais interessados em trocar pelo que é mais fácil de assimilar.

O amor é tão doloroso que é melhor mentir pra nós mesmos e abraçar as formas fáceis de explicar o mundo e viver nestas construções pré-fabricadas. Não há mandato para se amar, nem é uma obrigação. As ideologias estão aí para isto mesmo; para nos fazer esquecer de quem somos e manter o véu que esconde o vazio do mundo.

O amor se faz; é uma construção da experiência humana de conviver com o tempo e a razão no meio da loucura do mundo construído sobre a insanidade dos atos humanos, perdidos em sua lógica. O amor é essencialmente um produto do ser humano, uma exsudação do espírito (mente e coração). O amor não nasce da paixão, da riqueza, da fama, do poder, da posse, não é exterior e independente, algo que acontece por acaso, caído do céu.

O amor não existe sem nós, nem existe numa multidão de indivíduos, ou no coletivo puro e simples. O amor é um aprendizado que brota da desarmonia da existência humana de fora da natureza. Não há amor no mundo tal como há pedras, oceanos, montanhas, céus, planetas, estrelas e vidas. Só há amor em nós, a partir de nós, mas ele não vem conosco quando nascemos. 

A vida não é um ato de amor, é um simples acontecer. O amor não acontece por acaso, é uma construção rara na vida de um ser humano. No mais das vezes viveremos sem ter amado. O amor não é paz nem vida tranquila, não é sossego, nem descanso, não é família, nem filhos, nem bondade, nem sorte, nem auto-sugestão.

O amor não é nada até que o criamos, até que o vemos crescer dentro de nós, partejado. Vivemos num mundo sem amor, nascemos num mundo sem amor, e preencher este vazio é uma ato de vontade humana, mas de uma vontade muito grande, que se abre quando o véu que cobre a consciência se rasga e o vazio de amor do mundo se torna insuportavelmente real, dói como um câncer incurável.

Só então o amor é possibilidade real, mas só possibilidade. Não há gurus que guiem, nem há uma senda única para o amor. Não há nada além de nós. O amor não vive além de nosso ser, ele se torna nosso ser e toma todos os espaços possíveis na medida em que o concedemos.

Porque somos imperfeitos o amor é imperfeito, porque ele não é ele, somos nós mesmos nos transformando. O amor não tem sex appeal, não é excitante, não gera frisson. É invisível, inodoro, sem gosto, nem cores, não tem forma, não tem forma que o contenha, exceto a nós mesmos.

Então, aquela parte de nós que se torna amor pode se expor, e se expõe em nosso próprio viver. O conhecimento de viver, a experiência de viver é o único elemento que temos para construir o amor. Nada mais além da experiência de viver, a qual contém tudo o que somos e seremos. O amor é uma escolha e nem todos tem a chance de escolher.

Um ser tornado amor é um ser capaz de ajudar, de dar, de tornar o vazio do mundo em alguma coisa. A humildade do amor é enojante a muitos olhos, porque ele não reflete o poder que se procura desesperadamente como o fácil elixir substitutivo do amor. A arte de fingir e iludir e congregar e liderar não é amor, é uma panacéia, uma droga para anestesiar a dor de viver no vazio do mundo, que nossa consciência inata nos impõe até que nos cubram com os véus que nos protegem do vazio do mundo. A ignorância do amor é mestra em esconder o vazio do mundo

E no entanto, é o vazio do mundo, a indiferença do mundo, o que nos ensina a amar, talvez com alguma sorte e a proteção que tivermos ao nosso lado, do amor que os que nos rodeiam souberam construir. Só então o verbo se faz ação. O eterno principiar em cada um.

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About Mario Flecha

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