Manifesto

Text in English and Portuguese. Portuguese and English are intertwined.

This manifesto is a statement oriented and inspired by the primeval roots of writing. It is driven by the original meaning of the word “radical”, which means that that pertains to a root, has a root, a beginning, a driving principle. Literature is an old art of humankind. In the remote past there was a direct relationship between writers and readers. There were no publishing intermediaries between them other than  time, space, myth, and the know-how to read and write. It was art above merchandise. I am inspired, therefore, to pursue and recover the direct relationship between writer and reader, even more about poetry, because it hasn’t being so tamed to become merchandise, as other forms of art have.

Este manifesto é basedo e inspirado pelas raízes ancestrais do escrever. Está apoiado no significado da palavra “radical”, a qual significa aquilo que se relaciona à origem, que tem uma raiz, um começo, um princípio orientador. Literatura é uma arte antiga da humanidade. No passado remoto havia uma relação direta entre escritores e leitores. A publicação não tinha intermediários além do tempo, espaço, mito, e o saber ler e escrever. A arte estava acima da mercadoria. Sou inspirado, portanto, pela busca e redescoberta da relação direta entre escritor e leitor, ainda mais em relação à poesia, porque ela não foi domada tão completamente para se tornar mercadoria, tal como aconteceu a outras formas de arte.

In the beginning of literature the immaturity or inexistence of omnipresent and powerful institutions of trade, state, and religion didn’t control so much the creative process. Since then successive intermediary control layers appeared and the freedom to write and the access to the literary text became largely mediated by those layers. The writer and the reader put at the bottom of a hierarchical pyramid. Although, even with all the control apparatus, vital and liberating literature still makes its way through the cracks of the system,  with greater or lesser success, depending on the contexts. Literary art has a rebel nature and this nature is the essence of writing, because it is vital.

No começo da literatura a imaturidade ou inexistência de instituições onipresentes e poderosas de comércio, estado e religião não controlavam tanto o processo criativo. Desde então sucessivas camadas de controle intermediário surgiram, e a liberdade da escrita e acesso ao texto literário se tornaram amplamente mediados por tais camadas. Escritor e leitor foram postos na base da pirâmide hierárquica. Entretanto, mesmo com todo o aparato controlador, literatura vital e libertadora ainda consegue se infiltrar pelas brechas do sistema com maior ou menor sucesso, dependendo das conjunturas. A arte literária tem uma natureza rebelde e esta natureza é a essência do escrever, porque é vital.

It is undebatable that, before the current new technological possibilities that relink writers and readers, there was a need for some sort of institutional power to protect, nurture, organize, support, and evolve societies. However, those institutions and arrangements from the past have a life spam. New emerging institutions need new ways of thinking, and new ways of thinking need new institutional forms to meet societal changes and unleash the potential of new interaction technologies born with the Internet phenomenon. What was once a relatively positive force, the old institutions, is now questionable, at least in art, and in particular the literary art. 

É indiscutível que, antes das atuais possibilidades tecnológicas disponíveis para reconectar escritores e leitores, havia uma necessidade de alguma forma de poder institucional para proteger, nutrir, organizar, suportar e desenvolver as sociedades. Entretanto, tais instituições e arranjos do passado têm um limite de vida útil. As novas instituições que estão emergindo necessitam novas formas de pensar, e novas formas de pensar necessitam novas formas institucionais que correspondam às mudanças sociais que estão ocorrendo; para liberar o potential trazido pelas novas tecnologias de interação que surgiram com o fenômeno da Internet. O que era antes uma força relativamente positiva, as antigas instituições, é agora questionável, pelo menos no que tange à arte, e em particular a arte literária.   

I believe it is high-time to change the legacy of many institutional pillars taken for granted, because their time is past in face of the new ways available to writers to reach their readers directly, and vice versa. More than that, these new institutional forms and ways of thinking allow writers, previously excluded by institutionalized processes of choice and decision-making for publishing, to reach their readers without mediators, and have their merits weighted directly, in a participating and fluid process. The rationale that imposes the need for art to become merchandise isn’t anymore so prevalent. It is becoming an option. The figure of the “professional” writer and the publishing control layers are changing their absolute and monolithic meaning, after all. The text and the author can change dynamically based on the interactions with the readers, as opposed to the static nature of the word printed in paper. This interaction can occur now, without anyone else in between writers and readers. The writer-reader relationship is more and more a bidirectional communication, dynamic, and active.

Acredito que chegou o tempo de mudar muitos dos pilares institucionais tidos como inquestionáveis, porque se tornaram anacrônicos diante dos novos meios disponíveis a escritores para se relacionarem com os leitores diretamente, e vice-versa. Além de tudo, estas novas formas institucionais e maneiras de pensar  permitem que escritores, previamente excluídos pelos processos institucionalizados de seleção e decisão para publicação, alcancem seus leitores sem mediadores, e tenham seus méritos avaliados diretamente, em um processo participativo e fluido. O argumento que impõe a necessidade da arte se tornar mercadoria não é mais tão prevalente. Está se tornando uma opção. A figura do escritor “profissional” e as camadas de controle de publicação estão, finalmente, mudando e perdendo seu significado absoluto e monolítico. O texto e o autor podem mudar dinamicamente baseados nas interações com os leitores, ao contrário da natureza estática da palavra impressa em papel. Esta interação pode ocorrer atualmente, sem ninguém mais mediando escritores e leitores. O relacionamento escritor-leitor é cada vez mais de uma natureza bi-direcional, dinâmica e ativa.

One of the facets of modernity’s crisis is the scarcity of meaning of the modern world. There is a pursuit, even if unconscious, to find meaning for existence outside the world of merchandise, consumption of goods, and triviality. This pursuit requires that writers and readers move away from established certainties and behaviours in respect to what is art, as opposed to the imperatives of merchandising and expertise dictate what art is. The largely disseminated belief that something to be art must be advertised, confirmed and anointed by a publisher, sold in bookshops, and have the artist as a “certified professional”, is an old belief. Free literature, in particular poetry, is a fundamental enabler of a direct relationship between writer and reader. It is more possible than ever to recover the freedom of the origins of literature. This possibility is amplified by new interactive technologies. It is a time of great learning. We have an open field of new possibilities to explore, including the rediscovery of freedom lost in earlier processes of change.

Uma das facetas da crise da modernidade é a escassez de sentido do mundo moderno. Há uma procura, mesmo que em nível inconsciente, para encontrar sentido existencial fora do mundo da mercadoria, do consumismo, e da trivialidade. Esta busca requer distanciamento das crenças e comportamentos estabelecidos em relação ao que é arte, em oposição aos imperativos da mercantilização e profissionalismo ditarem o que a arte é. A crença disseminada de que alguma coisa para ser considerada arte precisa ser anunciada, confirmada e ungida por uma editora, vendida em livrarias, e o/a artista é um profissional certificado, é uma crença ultrapassada. A literatura livre, em particular a poesia, facilita de forma fundamental a relação direta entre escritor e leitor. Nunca foi tão possível exercitar esta liberdade novamente, tal como ela era nas origens da literatura. Ela é amplificada por novas tecnologias de comunicação entre escritores e leitores. Este é um tempo de grande aprendizado. Temos um campo aberto para explorar novas possibilidades, entre elas a redescoberta de liberdades que foram perdidas em processos de mudança anteriores. 

Literature, as art form and a way to enrich human spirit, still exists in the underground. It was largely marginalized by the mercantilization and “businification” of the craft. It suffers with the inevitable need to create idolatry and celebrities, and the sterility of the industry of triviality and entertainment. The intrinsic logic of a system that imposes itself as the only and final form of existence of humankind can and should be questioned. There are new means available to exercise individual freedom as never before. However, we can’t forget the need to overcome the digital divide to make Internet part of new emerging human rights. We need to overcome our own inertia, preconceived ideas, and go beyond the comfort zone.

Literatura, como forma de arte e maneira de enriquecer o espírito humano, ainda existe nos subterrâneos da liberdade no mundo moderno. Ela foi marginalizada pela mercantilização e “negocificação” da arte da escrita.  Ela sofre com a necessidade inevitável de criar idolatria e celebridades, e a esterilidade da indústria da trivialidade e entretenimento. A lógica intrínsica de um sistema que impõe a si mesmo como a forma única e final da humanidade pode e dever ser questionada. Há meios disponíveis atualmente para exercitar liberdades individuais como nunca antes. Entretanto, não podemos nos esquecer da necessidade de superar a exclusão digital para que a Internet seja parte de novos direitos humanos emergentes. Necessitamos de superar nossa própria inércia, idéias pré-concebidas, e ir além da zona de conforto. 

Yes, there is techné involved in writing, but the freedom to write and share the text has been largely controlled by others than writers and readers. Of all forms of art writing is perhaps the most simple one in terms of what it demands to be exercised. However, since Gutenberg’s press, publishing is, ironically, controlled by the roles of publishers and the publishing bureaucracy, who ultimately keep the ownership of the equipment , and decides what is publishable to meet ideological, political, business, and religious goals. It seems a paradox but in everything there is at least two complementary parts that are permanently dancing with each other, like the ancient Chinese concept of Yin-Yang and the fact that one element has the seed of the other. They have a finite time of prevalence over each other because the balance shifts in this cyclic and spiraling flow. I believe the balance is shifting to individual liberty and moving away from the governing logic of business and trade of literary art, at least in respect to poetry. It is moving towards a logic governed by art and genuine pursuit of being instead of having. A new episteme is coming, a new body of ideas is determining new values, new knowledge, new ways of looking at the world.

Sim, há techné no escrever, mas a liberdade de escrever e compartilhar o texto tem sido amplamente controlada por terceiros, ao invés de escritores e leitores. De todas as formas de arte escrever é talvez a mais simples em termos do que requer para ser exercida. Entretanto, desde a prensa de Gutenberg, publicar é, ironicamente, controlado pelos papéis desempenhados por editoras e a burocracia editorial, que detêm a propriedade dos equipamentos, e decidem o que é publicável de acordo com as metas ideológicas, políticas, de mercado, e religiosas. Parece um paradoxo mas em tudo há pelo menos duas partes complementares que estão permanentemente dançando uma com a outra, tal como o conceito chinês do Yin-Yang e o fato de que um elemento contém a semente do outro. Eles têm um tempo finito de prevalência de um sobre o outro porque o equilíbrio muda neste fluxo cíclico e espiral. Acredito que o equilíbrio está mudando para liberdade individual e se afastando da lógica que privilegia o negócio e o comércio da arte literária, pelo menos no que tange à poesia. Ele está se deslocando em direção a uma lógica governada pela arte e uma procura genuína de ser ao invés de ter. Uma nova episteme está sendo formada, um novo corpo de idéias está criando novos valores, novos conhecimentos, novas formas de olhar o mundo.

For centuries it is up to third parties to determine the intrinsic quality of a text, its own force,  instead of the direct response of the readers. A literary text’s quality became largely pre-determined by the publishers’ bureaucracy, the logic of the market, and potential for sale. It reached  a point where writing is turning into rocket science, a matter for experts to judge and tell what is publishable, what is good or bad, what to bless and advertise, and what to banish. Powerful identities based on these blessing roles resemble those medieval congregations of chosen ones. Institutionalization and professionalization replaced the direct relationship between writers and readers. Professionalization, as opposed to the mastering of an art, became the official certification to show who is who, because the professional role became a synonym of better, serious, competent. However, the term “professional” doesn’t hold a direct relationship with the quality of literary text. We know that, likewise any other profession, there are professional writers that have a very dismal value as artists that love their art.

Por séculos tem cabido a terceiros determinar a qualidade intrísica de um texto, sua própria força, ao invés da resposta direta dos leitores.  A qualidade de um texto literário passou a ser primordialmente pré-determinada pela burocracia editorial, a lógica do mercado, e potencial de venda. Chegou-se a um ponto onde escrever está se tornando uma ciência astrofísica, uma matéria de ultra-especialistas que julgam e dizem o que é publicável, o que é bom ou ruim, o que abençoar e promover, e o que banir. Poderosas identidades baseadas baseadas nas regras de abençoamento se asemelham àquelas congregações medievais dos escolhidos. Institucionalização e profissionalização substituíram a relação direta entre escritores e leitores. Profissionalização,  em oposição ao refinamento da arte de escrever, tornou-se a certificação oficial para apontar quem é quem, porque o papel de profissional tornou-se sinônimo de melhor, sério, competente. Entretanto, o termo “profissional” não tem uma relação direta com a qualidade de um texto. Sabemos que, como em qualquer outra profissão, há escritores profissionais que têm um valor minúsculo como artistas que amam a sua arte.  

The microphysics of power played between writers and publishers, the politics involved to pursue recognition, and the market rationality became the prominent driver to decide what is publishable; and even the most celebrated and best writers abide to it (this conformity also applies to other forms of art). If we accept the possibility that market doesn’t determine the quality, then it is possible to accept the possibility that good writers are good not because they sell, but because they have something to say, no matter what the publishing establishment in literature thinks. Literature is art, not the work of technicians, scientists, and business experts, I would argue. I don’t dispute the importance and value of the knowledge of editors and language experts, but when used as a form of domination I think it should be questioned.

A microfísica do poder exercido entre escritores e editores, a política envolvida na busca de reconhecimento, e a racionalidade mercadológica tornaram-se o motivo predominante na decisão do que é publicável; e mesmo os mais celebrados e melhores escritores se vergam diante deste poder (este conformismo também se aplica a outras formas de arte). Se aceitamos a possibilidade de que o mercado não é determinante da qualidade, então é possível aceitar a possibilidade de que bons escritores são bons não porque vendem, mas porque têm algo a dizer, não importando o que o establisment editorial pensa. Literatura é arte, não o trabalho de técnicos, cientistas, e especialistas de negócio, eu penso. Não disputo a importância e valor do conhecimento dos editores e especialistas de linguagem, mas quando usado como forma de dominação eu penso que dever ser questionado.  

Currently, if we look closer, the freedom brought back by the Internet unlocked the door of the institutional cage. It is more possible than ever for a writer to reach out the readers and  have them, primordially, responding to the text. The current challenge is to break the invisible chains that make many of us believe that we’re still in a locked cage. It is a situation similar to those birds that get so used to incarceration that they don’t even try to leave when the cage’s door is open. A re-education process, a heads up for the freedom now possible needs to occur. The obedient behaviour instilled by institutionalization needs to be overcome.

Atualmente, se olhamos bem de perto, a liberdade trazida de volta pela Internet destrancou a porta da gaiola institucional. É mais possível que nunca para um escritor se comunicar diretamente com os leitores e receber, essencialmente, a resposta deles a seu texto. O desafio atual é romper as correntes invisíveis que fazem com que muitos de nós acreditem que estão ainda numa gaiola. É uma situação similar àqueles passarinhos que, de tão acostumados ao encarceramento, nem tentam deixar a gaiola quando a portinhola está aberta. Um processo de re-educação, um alerta para a liberdade agora possível, necessita ocorrer. O comportamento obediente, instilado pela institucionalização, necessita ser superado.

I believe that, today, from all forms of art, the one that is closer to this possible freedom is the music. Musicians are moving quicker and changing the ways they relate to listeners. Other forms of art should be pursuing the same. I created this blog to continue to write, to improve my writing, and to publish and to receive the active feedback of the readers. It is a two-way form of writing and it values the dialogue and the continuous flux of things. If I change, my text changes as well. The interactions with the readers are the main mechanism to start the change towards the free exercise of the literary art. This blog reflects the continuous process of being in the constant flux of life.

Acredito que, hoje em dia, de todas as formas de arte, a que está mais próxima desta liberdade possível é a música. Músicos estão se adaptando rapidamente e mudando a maneira como se relacionam diretamente com os ouvintes. Outras formas de arte devem procurar fazer o mesmo. Eu criei este blog para continuar a escrever, para aperfeiçoar a minha escrita, e para publicar e receber o retorno ativo dos leitores. Esta é uma forma de escrever que tem duas-mãos de direção, e que valoriza o diálogo e o fluxo contínuo das coisas. Se mudo, o meu texto também muda. As interações com os leitores são o principal mecanismo para iniciar a mudança para um exercício livre da arte literária. Este blog reflete o processo contínuo de ser no fluxo constante da vida.  

4 Responses to Manifesto

  1. Olá Mário!
    Vi que a gente tem pensamentos convergentes… e me encantei com a sua capacidade de analisar o momento presente – o que é difícil enquanto histórias vivas, dado a fugacidade e as inúmeras tendências e possibilidades do porvir.
    Só quem vislumbra essas continuidades (ou rupturas, evidentemente) é capaz de escrever sobre o hoje.
    Você tem os pés (e a cabeça) no amanhã!…
    Grande abraço,
    Rosa

    • mario flecha says:

      Oi Rosa, muito bom receber sua mensagem. Eu vinha (e ainda venho) lutnado muito pra tentar ver as coisas com esperança mas sem ilusão. Acho que há um grande potencial, sempre houve, ao dispor da humanidade e das individualidades. É um mundo de contradições mas temos que encontrar caminhos entre elas. Grande abraço também, Mário

  2. so queria dizer que GOSTEI!
    beijos com ares de Barcelona no outono, mas ainda com flores (aquelas que resitem e resistem e resistem)…

    • mario flecha says:

      Gostei de receber seu comentário também. É refrescante. Tenho colocado muita energia neste blog. Voltei ao texto depois de ver que foi lido e fiz mais uma revisão pente-fino, e, é claro, havia o que corrigir. Um feedback sempre me faz refletir sobre o texto e isto me ajuda sempre.

      Ah que bom deve ser viver em Barcelona. Tanta vida, cultura e história.

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